Papa Francisco afirmou em uma longa entrevista divulgada nesta quinta-feira, 19, que a maior necessidade da Igreja hoje é a "capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis". Em entrevista exclusiva à Revista jesuíta italiana La Civiltà Cattolica, o Santo Padre afirmou que sonha como uma "Igreja Mãe e Pastora". "Os ministros da Igreja devem ser misericordiosos, tomar a seu cargo as pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano que lava, limpa, levanta o seu próximo. Isto é Evangelho puro. Deus é maior que o pecado", destacou. Francisco disse ainda que, por vezes, a Igreja encerrou-se em pequenas coisas e preceitos, porém, o mais importante é o primeiro anúncio: "Jesus Cristo salvou-te". Portanto, segundo o Pontífice, a atitude é a primeira reforma necessária na Igreja, e as reformas organizativas e estruturais são secundárias. "Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão, sem perder-se. O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou clérigos de Estado. Os bispos, em particular, devem ser capazes de suportar com paciência os passos de Deus no seu povo, de tal modo que ninguém fique para trás, mas também para acompanhar o rebanho que tem o faro para encontrar novos caminhos", enfatizou. O Santo Padre falou também de temas complexos como o aborto e uniões homossexuais. Francisco recordou que, em Buenos Aires, recebia cartas de pessoas homossexuais que sentiam-se condenadas pela Igreja. "Mas a Igreja não quer fazer isso", explicou. E recordou que, em sua viagem de retorno do Rio de Janeiro, disse que se uma pessoa homossexual é de boa vontade e está à procura de Deus, ele não seria "ninguém para julgá-lo". "É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. Quando isto acontece, o Espírito Santo inspira o sacerdote a dizer a coisa mais apropriada. Esta é também a grandeza da confissão: o fato de avaliar caso a caso e de poder discernir qual é a melhor coisa a fazer por uma pessoa que procura Deus e a sua graça". O Pontífice afirmou o mesmo em relação às mulheres que cometaram aborto. E complementou: "Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja é conhecido e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente". Na entrevista, realizada em três encontros no mês de agosto com o padre jesuíta Antonio Spadaro, especialista em comunicação e diretor da revista italiana La Civiltà Cattolica, Papa Francisco falou ainda, entre outros assuntos, sobre o que pensa de si mesmo, sua experiência a frente da Igreja, sua vocação jesuíta e sobre o rumo que pretende dar à Igreja em seu Pontificado.
O catequista deve ser uma pessoa de fé, na busca de profunda e espiritualidade.
Deixa-se evangelizar e deve agir mais pelo exemplo do que pela palavra.
A espiritualidade do catequista não se reduz apenas à reza do terço, à contemplação, retiro, à adoração, mas e sobretudo, à renovação que gera vida, esperança, conversão, que cria homens e mulheres novos.
Toda pessoa espiritual é criativa e mãe da novidade.
É sabido que muitos rezam, adoram, escutam a Palavra de Deus, porém, nada renovam.
Faltas-lhes a alma de tudo que é o ESPÍRITO SANTO, o grande gestor e matriz do mundo novo, a alma da Igreja,
fonte de justiça e de liberdade.
Percebe-se quando uma pessoa é espiritual pelos seus gestos humanitários (caridosa, dedicada, abnegada, não busca recompensa nem promoção pessoal).
A espiritualidade está ligada à caminhada da comunidade, partindo de sua realidade, de seus anseios, de suas lutas e experiências.
Aqueles que são chamados ao serviço catequético, que o façam da melhor maneira possível, refletindo, e preparando-se adequadamente, da consciência de serem enviados e comprometidos com a educação da fé.
Toda espiritualidade tem sua fonte e sua meta na Trindade.
Somos convidados, pelo Batismo, a entrar na intimidade de Deus, viver sua vida, participar do seu amor.
A palavra ESPIRITUALIDADE tem relação com "espírito".
Mas, não no sentido de algo abstrato. A palavra "espírito" faz lembrar impulso, força que leva a agir. Espiritualidade é, então, uma força que nos anima, que inspira.
Ela vem de dentro e nos impulsiona para a ação.
Na vida do cristão, esta força é o Espírito Santo, que nos impulsiona, ascende em nós o fogo do amor: amor à Deus, amor aos irmãos. É esse amor que faz agir.
Existem diversos tipos de espiritualidade:
a do padre, a dos religiosos, dos leigos etc.
O catequista também tem a sua e ela tem algo de especifico: levar a mensagem do evangelho a outros, formar para a comunidade. Sentem o amor e o impulso para dedicar-se a esta tarefa. É uma vocação que vem de dentro.
O catequista de fé, para cultivar em si uma espiritualidade autêntica,
deverá ter certas atitudes em sua vida:
-Relacionamento pessoal e profundo com Deus-Pai;
-Seguimento a Cristo nas atitudes e no interesse pelo Reino de Deus, fruto de uma adesão sincera;
-Docilidade à ação do Espírito Santo;
-Comunhão com a Igreja, comunidade que evangeliza, celebra e testemunha Jesus Cristo;
-Amor filial a Maria, mãe e modelo do catequista;
-Vivência do mistério cristão e da missão catequizadora dentro do grupo de catequistas;
-Escuta com fé e fidelidade da Palavra de Deus, que se manifesta na Bíblia, na Igreja e nos acontecimentos;
-Integração dos aspectos celebrativos da liturgia e da piedade popular;
-Vida sacramental, de oração e contemplação encarnada na vida do povo;
-Atitudes de serviço para com todos;
-Espiritualidade do trabalho e da ação;
-Amor aos empobrecidos e vivência da pobreza evangélica;
-A alegria de ser evangelizador.
(Estudo da CNBB nº 59 - A formação do catequista, pp. 61-62).
Expliquei ao jornalista o que entendo por catequese cristã. É a certeza de que Deus se importa conosco e de que devemos nos importar com a sua obra.
Um cristão só se torna importante quando se importa e quando abre a porta que dá para o mundo. Não se fecha, abre-se. Não se isola: participa. Não se deixa encurralar e sitiar e também não sitia nem encurrala. Dialoga e importa-se. Não crucifica, descrucifica!
Uma Igreja que se importa com o casal, com as crianças, com os jovens, com os adolescentes, com os anciãos, com os pobres e com o futuro do seu povo torna-se uma igreja importante: importante porque se importa!
Igrejas tornam-se interessantes quando se interessam e se mostram interessadas na sorte dos mais sofridos. Só pode falar de eternidade uma Igreja que tem tempo para quem precisa de seu tempo.
O repórter disse que gostava dos meus trocadilhos. Sorri e disse-lhe que brinquei com as palavras, mas não com a catequese. O cerne da questão é exatamente esse: interessar-se, importar-se, tentar entender e compreender, saber ler os sinais dos tempos. Isto, só se consegue quando se tem um coração atento e atencioso.
Ele agradeceu pela entrevista. Eu agradeci pela oportunidade que me dava de falar a milhares de pessoas. Emprestou-me a sua cultura de repórter, homem que busca a notícia e emprestei-lhe a minha cultura de sacerdote, homem que a analisa. Ele se importa e eu também. De certa forma, somos pessoas importantes. Importamo-nos!
Fonte: http://www.paulinas.org.br/diafeliz/?system=mensagem&id=1520
«Deus viu que isso era bom» (Gn 1,12.18.21.25). A narração bíblica da origem do mundo e da humanidade nos fala de Deus que olha a criação, quase a contemplando, e repete uma e outra vez: isso é bom. Isso, queridos irmãos e irmãs, nos permite entrar no coração de Deus e recebermos a sua mensagem que procede precisamente do seu íntimo.
Podemos nos perguntar: qual é o significado desta mensagem? O que diz esta mensagem para mim, para ti, para todos nós?
1. Simplesmente nos diz que o nosso mundo, no coração e na mente de Deus, é “casa de harmonia e de paz” e espaço onde todos podem encontrar o seu lugar e sentir-se “em casa”, porque é “isso é bom”. Toda a criação constitui um conjunto harmonioso, bom, mas os seres humanos em particular, criados à imagem e semelhança de Deus, formam uma única família, em que as relações estão marcadas por uma fraternidade real e não simplesmente de palavra: o outro e a outra são o irmão e a irmã que devemos amar, e a relação com Deus, que é amor, fidelidade, bondade, se reflete em todas as relações humanas e dá harmonia para toda a criação. O mundo de Deus é um mundo onde cada um se sente responsável pelo outro, pelo bem do outro. Esta noite, na reflexão, no jejum, na oração, cada um de nós, todos nós pensamos no profundo de nós mesmos: não é este o mundo que eu desejo? Não é este o mundo que todos levamos no coração? O mundo que queremos não é um mundo de harmonia e de paz, em nós mesmos, nas relações com os outros, nas famílias, nas cidades, nas e entre as nações? E a verdadeira liberdade para escolher entre os caminhos a serem percorridos neste mundo, não é precisamente aquela que está orientada pelo bem de todos e guiada pelo amor?
2. Mas perguntemo-nos agora: é este o mundo em que vivemos? A criação conserva a sua beleza que nos enche de admiração; ela continua a ser uma obra boa. Mas há também “violência, divisão, confronto, guerra”. Isto acontece quando o homem, vértice da criação, perde de vista o horizonte da bondade e da beleza, e se fecha no seu próprio egoísmo.
Quando o homem pensa só em si mesmo, nos seus próprios interesses e se coloca no centro, quando se deixa fascinar pelos ídolos do domínio e do poder, quando se coloca no lugar de Deus, então deteriora todas as relações, arruína tudo; e abre a porta à violência, à indiferença, ao conflito. É justamente isso o que nos quer explicar o trecho do Gênesis em que se narra o pecado do ser humano: o homem entra em conflito consigo mesmo, percebe que está nu e se esconde porque sente medo (Gn 3, 10); sente medo do olhar de Deus; acusa a mulher, aquela que é carne da sua carne (v. 12); quebra a harmonia com a criação, chega a levantar a mão contra o seu irmão para matá-lo. Podemos dizer que da harmonia se passa à desarmonia? Mas, podemos dizer isso: que da harmonia se passa à desarmonia? Não. Não existe a “desarmonia”: ou existe harmonia ou se cai no caos, onde há violência, desavença, confronto, medo...
É justamente nesse caos que Deus pergunta à consciência do homem: «Onde está o teu irmão Abel?». E Caim responde «Não sei. Acaso sou o guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9). Esta pergunta também se dirige a nós, assim que também a nós fará bem perguntar:
- Acaso sou o guarda do meu irmão? Sim, tu és o guarda do teu irmão! Ser pessoa significa sermos guardas uns dos outros! Contudo, quando se quebra a harmonia, se produz uma metamorfose: o irmão que devíamos guardar e amar se transforma em adversário a combater, a suprimir. Quanta violência surge a partir deste momento, quantos conflitos, quantas guerras marcaram a nossa história! Basta ver o sofrimento de tantos irmãos e irmãs. Não se trata de algo conjuntural, mas a verdade é esta: em toda violência e em toda guerra fazemos Caim renascer. Todos nós! E ainda hoje prolongamos esta história de confronto entre os irmãos, ainda hoje levantamos a mão contra quem é nosso irmão. Ainda hoje nos deixamos guiar pelos ídolos, pelo egoísmo, pelos nossos interesses; e esta atitude se faz mais aguda: aperfeiçoamos nossas armas, nossa consciência adormeceu, tornamos mais sutis as nossas razões para nos justificar. Como fosse uma coisa normal, continuamos a semear destruição, dor, morte! A violência e a guerra trazem somente morte, falam de morte! A violência e a guerra têm a linguagem da morte!
Depois do Dilúvio, cessou a chuva, surge o arco-íris e a pomba traz um ramo de oliveira. Penso também hoje naquela oliveira que os representantes das diversas religiões plantamos em Buenos Aires, na Praça de Maio, no ano 2000, pedindo que não haja mais caos, pedindo que não haja mais guerra, pedindo paz.
3. E neste ponto, me pergunto: É possível percorrer o caminho da paz? Podemos sair desta espiral de dor e de morte? Podemos aprender de novo a caminhar e percorrer o caminho da paz? Invocando a ajuda de Deus, sob o olhar materno da Salus Populi romani, Rainha da paz, quero responder: Sim, é possível para todos! Esta noite queria que de todos os cantos da terra gritássemos: Sim, é possível para todos! E mais ainda, queria que cada um de nós, desde o menor até o maior, inclusive aqueles que estão chamados a governar as nações, respondesse: - Sim queremos! A minha fé cristã me leva a olhar para a Cruz. Como eu queria que, por um momento, todos os homens e mulheres de boa vontade olhassem para a Cruz! Na cruz podemos ver a resposta de Deus: ali à violência não se respondeu com violência, à morte não se respondeu com a linguagem da morte. No silêncio da Cruz se cala o fragor das armas e fala a linguagem da reconciliação, do perdão, do diálogo, da paz. Queria pedir ao Senhor, nesta noite, que nós cristãos e os irmãos de outras religiões, todos os homens e mulheres de boa vontade gritassem com força: a violência e a guerra nunca são o caminho da paz! Que cada um olhe dentro da própria consciência e escute a palavra que diz: sai dos teus interesses que atrofiam o teu coração, supera a indiferença para com o outro que torna o teu coração insensível, vence as tuas razões de morte e abre-te ao diálogo, à reconciliação: olha a dor do teu irmão – penso nas crianças: somente nelas... olha a dor do teu irmão, e não acrescentes mais dor, segura a tua mão, reconstrói a harmonia perdida; e isso não com o confronto, mas com o encontro! Que acabe o barulho das armas! A guerra sempre significa o fracasso da paz, é sempre uma derrota para a humanidade. Ressoem mais uma vez as palavras de Paulo VI: «Nunca mais uns contra os outros, não mais, nunca mais... Nunca mais a guerra, nunca mais a guerra! (Discurso às Nações Unidas, 4 de outubro de 1965: ASS 57 [1965], 881). «A paz se afirma somente com a paz; e a paz não separada dos deveres da justiça, mas alimentada pelo próprio sacrifício, pela clemência, pela misericórdia, pela caridade» (Mensagem para o Dia Mundial da Paz, de 1976: ASS 67 [1975], 671). Irmãos e irmãs, perdão, diálogo, reconciliação são as palavras da paz: na amada nação síria, no Oriente Médio, em todo o mundo! Rezemos, nesta noite, pela reconciliação e pela paz, e nos tornemos todos, em todos os ambientes, em homens e mulheres de reconciliação e de paz. Assim seja.
O grito do Ipiranga, desde a tarde do dia 7 de setembro de 1822, ecoa até hoje no coração de todos os brasileiros: “Indepedência ou morte!”. Naquele contexto de um Brasil Colônia, a atitude do Imperador Dom Pedro I expressou o que ia no coração de todos os brasileiros: o desejo de ser uma nação soberana.
É de se perguntar se a proclamação simbólica da independência realizou, de fato, esse sonho de soberania, uma vez que as elites rurais permaneceram com seus privilégios políticos e focadas na exportação da matéria-prima nacional; a escravidão foi mantida e mantidos foram também os latifúndios e o modelo de governo monárquico. Estranhamente, o Brasil indenizou Portugal pela sua independência pagando 2 milhões de libras esterlinas, começando, ali, a dívida externa brasileira com a Grã-Bretanha que emprestou o dinheiro. Será que foi independência ou morte?
Esses fatos que recordamos, todos os anos, na data cívica de sete de setembro, tem algum significado ao coração do cristão? Encontramos a resposta no Compêndio de Doutrina Social da Igreja da Católica, nos números 421-427, os quais tratam do “Estado e as Comunidades Religiosas”. O assunto é muito atual, pois, na defesa de um Estado Laico, alguns imaginam que se deveria limitar a liberdade religiosa que permite aos cristãos, por exemplo, engajar-se no mundo da política. Segundo a Doutrina Social da Igreja (DSI) esta liberdade religiosa é um direito fundamental.
Então, qual seria a relação saudável entre a Igreja Católica e a comunidade política? A DSI indica dois princípios. O primeiro é, justamente, o da “autonomia e independência”. A Igreja e o Estado são estruturas visíveis, mas independentes. Enquanto Igreja está organizada para atender os fins espirituais dos fiéis, o Estado tem como finalidade cuidar e prover o bem comum temporal.
O segundo princípio é o da “colaboração”. Igreja e Estado são independentes, mas não separados. A sadia colaboração entre eles será benéfica para o povo. Atenção: quando a DSI fala que a missão específica da Igreja é o bem espiritual das pessoas, não exclui as outras dimensões da vida, pois sua missão abraça toda a realidade humana. Nesse sentido, vale a pena transcrever o número 426 do Compêndio da Doutrina Social da Igreja, que é muito claro: “A Igreja, portanto, pede: liberdade de expressão, de ensino, de evangelização; liberdade de manifestar o culto em público; liberdade de organizar-se e ter regulamentos internos próprios; liberdade de escolha, de educação, de nomeação e transferência dos próprios ministros; liberdade de construir edifícios religiosos; liberdade de adquirir e de possuir bens adequados à própria atividade; liberdade de associar-se para fins não só religiosos, mas também educativos, culturais, sanitários e caritativos.”
Quem sabe possamos corrigir o grito do Ipiranga. Não se trata de “independência ou morte”, mas “independência e colaboração”. É assim que construiremos uma nação, na qual reine a justiça social. E enquanto ainda existir focos de dependência e exclusão, somos chamados a promover a solidariedade com todos os que estão na periferia da história, como sempre nos lembra o Papa Francisco: “Não podemos dormir tranquilos enquanto crianças passam fome”.
Padre Joãozinho, SCJ
Padre da Congregação do Sagrado Coração de Jesus (Dehonianos), doutor em Teologia, diretor da Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP), músíco e autor de vários livros. 06/09/2013 - 08h00
Neste domingo entramos na Semana da Pátria, neste ano de 2013.
Desta vez, emerge com mais evidência o valor cívico de uma iniciativa, que vem se sustentando ao longo dos últimos 19 anos. Trata-se do “Grito dos Excluídos”. Ele surgiu em 1995, ano em que a Campanha da Fraternidade era, exatamente, sobre os Excluídos.
Esta circunstância mostra bem uma das características do “Grito dos Excluídos”, de ter sua realização sintonizada com o contexto histórico de cada ano.
Pois bem, neste ano, o Grito confirma seu significado e sua importância, colocado no contexto das surpreendentes manifestações populares, que abalaram o país, e deixaram perplexa a sociedade. O “Grito dos Excluídos” se apresenta com a firmeza de sua experiência, e com o acerto de suas intuições, que o acompanham desde a sua primeira realização.
Quando a sociedade se surpreende diante do peso que pode assumir a manifestação pública de suas demandas e a afirmação clara de valores e princípios que precisam animá-la, o Grito pode apresentar o seu atestado de maturidade, fruto de uma longa sequência de edições anuais ininterruptas, com a clareza das causas levantadas, e com o rigor dos procedimentos democráticos que sempre caracterizaram o Grito.
Ele foi circundado, desde o seu início, de providências que lhe foram angariando credibilidade, sobretudo pelo cuidado em respeitar as instituições e em evitar ambiguidades, sempre pautando suas demonstrações com temas pertinentes e com atitudes democráticas.
Tendo como referências uma data histórica, o Sete de Setembro, e um lugar simbólico, o Santuário Nacional de Aparecida, o Grito sempre procurou equacionar bem o seu espírito unitário, e ao mesmo tempo sua estratégia de descentralização. A manifestação de Aparecida é paradigmática, incentivando outras manifestações, em milhares de localidades, em todos os Estados do País.
Outra circunstância, que fortalece seu espírito e ilumina o seu alcance, é o fato de ser realizado em parceria com a Romaria dos Trabalhadoras e Trabalhadores, que acontece também no mesmo dia e no mesmo lugar.
Com estas características, foi-se elaborando uma espécie de “teologia do grito” , que foi aglutinando em torno dele um leque de valores com que sempre ele é preparado, com a escolha democrática do seu lema, e com o empenho solidário que supera a falta de recursos e multiplica as adesões gratuitas em organizar suas manifestações simbólicas.
De tal maneira que o Grito se tornou um evento que transformou a praxe com que era festejado o Sete de Setembro, que já tinha se esvaziado de suas finalidades. O Grito veio devolver à cidadania a promoção do Dia da Pátria.
A idéia do Grito nasceu muito despretensiosa. Foi numa reunião do Secretariado Nacional da Cáritas. Estávamos buscando iniciativas para dar continuidade ao tema da Campanha da Fraternidade. Como já existisse, na época, o “grito da terra” e o “grito da Amazônia”, alguém sugeriu fazer também o “grito dos excluídos”.
O que parecia uma sugestão inconsistente, aos poucos foi sendo aceita, pela fecundidade de simbologias que o “Grito dos Excluídos” poderia ter.
Para que continuasse, era preciso tomar uma rápida providência: inserir o “Grito dos Excluídos” na programação oficial da CNBB. Esta providência foi garantida já no ano seguinte.
Aquilo que para alguns parecia incômodo, agora se constata que foi muito providencial. A CNBB pode oferecer à sociedade uma maneira democrática, responsável e providencial de “gritar” as causas urgentes que precisamos assumir, como Pátria onde todos podem se sentir incluídos.
“Tua Palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho!” (Salmo 119,105) Setembro é o mês da Bíblia. Este mês foi escolhido pela Igreja porque no dia 30 de setembro é dia de São Jerônimo (ele nasceu no ano de 340 e faleceu em 420 dC). São Jerônimo foi um grande biblista e foi ele quem traduziu a Bíblia dos originais (hebraico e grego) para o latim, que naquela época era a língua falada no mundo e usada na liturgia da Igreja. A Bíblia é hoje o único livro que está traduzido em praticamente todas as línguas do mundo e que está em quase todas as casas. Serve de “alimento espiritual” para a Igreja e para as pessoas e ajuda o povo de Deus na sua caminhada em busca de construir um mundo melhor. “Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça ” (2Tm 3,16). A Bíblia foi escrita por pessoas chamadas e escolhidas por Deus e que foram inspiradas através do Espírito Santo. Ela revela o projeto de Deus para o mundo; serve para que todos possamos crescer na fé e levar uma vida de acordo com o projeto de Deus. Por isso, ela é a grande “Carta de Amor” de Deus à Humanidade. A Palavra de Deus nos revela o rosto de Deus e seu mistério. Ela é a história do Deus que caminhou com seu povo e do povo que caminhou com seu Deus. A Bíblia tem uma longa história, desde nossos pais e mães da fé (Abraão e Sara, Isaac e Rebeca, Jacó Lia e Raquel) passando por Moisés, pelos Profetas, até a vinda do Messias, e por fim a morte do último dos Doze Apóstolos quando foi escrito o último livro da Bíblia (o Apocalipse, escrito no final do I século). A Palavra de Deus demorou em torno de dois mil anos para ser escrita. Muitas pessoas fizeram parte desta história: homens, mulheres, crianças, jovens, anciãos… Por isso, podemos dizer que a Bíblia é um livro feito em mutirão. Passaram-se os tempos, os anos, mudaram muitas coisas, impérios cresceram e caíram, tantas idéias foram superadas, mas a Palavra de Deus continua “viva e eficaz” (Hb 4,12), pois “ela permanece para sempre” (1Pd 1,25). Embora o mundo busca outros caminhos, sempre existiram pessoas e comunidades que foram fiéis, que buscaram nas Palavras Sagradas a fonte para sua inspiração, para continuar vivendo e realizando o projeto de Deus. Mais do que história, a Bíblia é portadora de uma mensagem. Ela é capaz de denunciar e anunciar. Ela denuncia as injustiças, os pecados, as situações desumanas, de pobreza, exploração e exclusão em que vivem tantos irmãos nossos. Foi isso que fizeram os Profetas e também Jesus Cristo em algumas ocasiões, pois toda situação de injustiça e pecado é contrária ao projeto de Deus. Mas a Bíblia é, sobretudo, um livro de anúncio. Ela proclama a boa notícia vinda de Deus: Ele nos ama e nos quer bem! Ele é o Deus que caminha conosco, que está ao nosso lado e nos dá força e coragem! Foi Deus que enviou ao mundo seu Filho Jesus Cristo. Ele veio nos trazer a Boa Notícia do Reino; veio nos trazer a Salvação, o perdão dos pecados. É através da fé em Jesus Cristo que nos tornamos filhos de Deus. Na Bíblia encontramos textos para as diversas situações da vida. Ela ajuda a fortalecer a nossa fé; é útil na nossa formação, nos momentos de crises e dificuldades, na dor, na doença ou na alegria… Para todas as realidades encontramos textos apropriados. Todos podemos e devemos ler, estudar e conhecer a Palavra de Deus. É certo que na Bíblia encontramos alguns textos difíceis. A Bíblia mesmo diz isso (veja 2Pd 3,16¸ At 8,30-31; Dn 9,2; etc). Certas passagens foram escritas dentro de uma realidade diferente da nossa. Precisam ser interpretadas e atualizadas. Por isso, quando não entendemos um texto, é melhor passar adiante, buscar outra passagem. O Pe. Zezinho nos ensina cantando: “Dai-me a palavra certa, na hora certa, do jeito certo e pra pessoa certa”. É recomendável fazer um curso, uma Escola Bíblica ou estudar em grupos. Tudo isso ajuda a entender melhor a Bíblia. Na verdade, todo mês devia ser Mês da Bíblia; todo dia devia ser Dia da Bíblia. Por isso, a Bíblia não pode ser apenas um ornamento em nossa casa. A Palavra de Deus deve ser o nosso alimento de cada dia e buscar nela o sustento para a nossa vida. Termino lembrando um texto bonito de São Paulo: “Tudo o que se escreveu no passado foi para o nosso ensinamento que foi escrito, afim de que, pela perseverança e consolação, que nos dão as Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15,4). Que neste mês da Bíblia, a Palavra que vem da boca de Deus nos anime, dê força e coragem e com isso sejamos cristãos da Esperança! Alguns conselhos práticos para quem quer ler, conhecer e viver segundo a Bíblia: 1) Pedir sempre ajuda ao Espírito Santo, isto é, iniciar sempre com uma oração; 2) Começar pelos livros e textos mais fáceis, ou seja, os Evangelhos, Atos dos Apóstolos…; 3) Ler e meditar um texto por dia (não é a quantidade que importa, mas a qualidade); 4) Procurar descobrir o contexto em que o texto foi escrito, ou seja: por que e para quem o texto foi escrito; 5) Anotar na sua Bíblia os textos que mais chamam a atenção; 6) Quando encontrar textos difíceis, passar adiante, deixar estes textos para quando participar de um curso ou quando encontrar pessoas que podem ajudar a explicar; 7) Atualizar o texto para hoje: colocá-lo em prática na vida. Celebrar e rezar a Bíblia e a vida. Viver a Palavra!